A participação feminina na liderança de negócios vem evoluindo com a percepção sobre como esse avanço trouxe mais eficácia aos resultados das empresas. Em 2020, um estudo da consultoria McKinsey mostrou que as organizações mais diversas têm 35% mais chances de alcançar rendimentos acima da média do setor. No dia a dia, os processos de trabalho conduzidos por equipes formadas por perfis profissionais mais diversos têm mais chances de sucesso graças à capacidade de inovação e de adaptação desses times.
Por isso, o papel central que os conselhos desempenham na governança corporativa faz dessas instituições alvo dos esforços pela diversidade de gênero, defende Afra Afsharipour, pesquisadora e professora da UC Davis School of Law, no artigo “Women and M&A”, publicado pela UC Irvine Law Review. Para a autora, a representação na liderança de conselhos é particularmente importante para as transações de M&A pela criticidade desse papel na definição de agenda e sua influência na tomada de decisão.
Por variados motivos, que vão desde preferências acadêmicas às longas horas de trabalho exigidas, o universo financeiro e, mais especificamente, a área de M&A, enfrenta um gap persistente em igualdade de gênero. Na análise das 700 maiores transações de M&A entre 2014 e 2020, Afsharipour afere em sua pesquisa que as mulheres estiveram na liderança de conselho em apenas 10% dos casos no buy side, e em 12,4% dos casos pelo sell side.
A boa notícia é que grandes iniciativas vêm sendo implementadas, conforme os índices de participação feminina evoluem em M&A. Cientes da importância de inclusividade e da diversidade para o ambiente de negócios, organizamos uma importante round table com Bruna Vianna, managing partner da Acorn Advisory, Esther Deona, gerente regional da M&A Community , Karolyna G. Schenk, diretora-executiva de M&A na TOTVS e Sabine Schilg, vice-presidente de sucesso de cliente da iDeals.




ROUNDTABLE
Esther Deona – Bem-vindas, como vocês enxergam o ambiente para a participação feminina no mercado de M&A hoje?
Karolyna Schenk: estamos evoluindo, mas a um ritmo mais lento do que poderia ser. Ainda há uma sub representação significativa de mulheres na liderança entre todas as instituições envolvidas em M&A e essa lacuna não está apenas em M&A, mas em diversas outras áreas do ambiente corporativo. Inclusão é uma questão chave para o mercado de uma forma geral.
Sabine Schilg: diante dos inúmeros benefícios que equipes e lideranças inclusivas trazem para negócios e em geração de valor, as questões de diversidade estão atraindo a atenção de uma ampla gama de empresas, de investidores e do mercado consumidor. Com isso, temos visto um aumento representativo das porcentagens de mulheres nos conselhos da empresa e em cargos de alta direção.
Bruna Vianna: no cenário de M&A, a presença feminina tem um longo caminho a seguir, isso em um ambiente no qual a participação masculina sempre prevaleceu. Porém, impulsionado por vários fatores, incluindo a pandemia, o trabalho remoto trouxe mais flexibilidade na rotina e obrigou empresas a adaptar o relacionamento com seus colaboradores. Houve um deslocamento desse olhar sobre o trabalho, que passou a ter a produtividade como base, comparado à presença física.
Esther – A pandemia impactou a diversidade nas empresas, Bruna você pode comentar mais sobre essa afirmação?
Bruna: o trabalho remoto influencia especialmente a condição de trabalho para as mães, porque sabemos como a rotina parental ainda recai sobre as mulheres em grande parte dos casos. Vi também um aumento do empreendedorismo feminino nesse período. Mas a questão principal é que, enquanto não tivermos mais mulheres líderes e que tenham espaço para promover mudanças na cultura corporativa, não conseguiremos replicar as transformações que precisamos para aumentar a inclusão.
Esther – Quais as ferramentas mais importantes para criar oportunidades para mulheres nas lideranças?
Karolyna: soluções que conseguiram alcançar uma maior diversidade de gênero nos Conselhos de Administração, ao longo dos últimos anos, são algumas das muitas ferramentas que poderiam ser pensadas e eventualmente adotadas para transformar a prática de M&A. Para isso acontecer, no primeiro momento, acionistas exerceram um papel importante de pressão por essa agenda e, na sequência, houve um movimento de expansão desses processos no mercado, que tem ganhado cada vez mais força. Além disso, acredito que, aquelas mulheres que conseguirem se consolidar em posições de liderança em M&A poderiam e deveriam contribuir para reduzir essas disparidades de gênero formando e capacitando novos talentos.
Bruna: o primeiro passo é mobilizar a cadeia. Ter mulheres representando e capacitando outras mulheres é importante para que essas profissionais estejam preparadas, e as empresas não precisem apostar do zero nelas, já que isso é difícil em qualquer indústria. O segundo ponto é a empresa entender melhor os desafios desse quadro para as mulheres, porque a dinâmica de M&A é de expedientes longos. A pandemia provocou a discussão sobre a qualidade e produtividade versus presença física e deu espaço para a flexibilização de horários. Conforme essa profissional ganha mais autonomia, a tendência é a de se sentir mais segura no ambiente de trabalho. O terceiro ponto é que muitas mulheres passaram de colaboradoras corporativas as empreendedoras nesse período. Essas empresas lideradas por executivas atraíram fundos de impacto e criaram nichos de mercado para fomentar a própria cultura corporativa, provocando o mercado a repensar os modelos mais rígidos de contratação.
Sabine: adicionalmente aos pontos da Bruna e da Karolyna, uma ferramenta importante é a mentoria de carreira e jornada em M&A. É uma oportunidade de compartilhar conhecimento, experiência e sugerir rotas, fazendo uma grande diferença nesse caminho. O network que vem da rede de mentoria é maravilhoso e abre muitas portas para o negócio. E esse processo não se dá apenas para as profissionais que estão entrando no mercado de trabalho, mas também para as que já assumem posição de liderança sênior, um exemplo é o projeto W-CFO que aceita mentoradas em cargos elevados.
Roundtable realizada pelo TTR – Transactional Track Record, em colaboração com a iDeals.

